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Desculpa, filho

Escorre-me pelos olhos a falta que me fazes, filho. A dor de te ver partir corroí-me por dentro, ocupa o espaço onde tinha guardado, dentro de mim, os motivos que pelos quais valia a pena viver. Sinto-me culpada de não ter ido primeiro, de desobedecer a esta lei humana que, pelos vistos, a nem todos está destinada, infelizmente.
Eras tu quem dava alegria a esta casa, agora só vejo o teu sorriso no cantar dos pássaros e na brisa do vento, que era das coisas que tu mais gostavas de sentir, e para mim e para o pai, agora és um pouco como o vento - espero que pelo menos isso te faça feliz - não te podemos ver, mas iremos sentir-te sempre, nunca te iremos esquecer.
Estou aqui, na tua campa, para te contar que vais ter um irmão, filho, e acredito que até ele, que nunca te viu irá ter muito orgulho e gostar muito de ti. A mãe está grávida de 5 meses, e prometo que desta vez não vou acreditar quando ele disser que está negro no braço porque caiu no recreio, em cheio numa pedra. Prometo que vou suspeitar do sorriso que ele vai fazer quando entrar em casa, só para não me preocupar. Prometo desconfiar de cada vez que não tiver apetite e preferir ficar em casa a ir brincar com os "amigos" para a rua.
Prometo aprender com tudo o que passamos, e com a dor pela qual ainda passo por não te ter aqui comigo, ao lado do pai, a sentir os pontapés do teu irmão.
Olha pelo pai e pela mãe, e pelo teu irmão que aí vem.
~Phi

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