Avançar para o conteúdo principal

A carta a quem me magoou

Esta é a carta que sempre quis escrever.
Não tenho nada de concreto a dizer, e por isso mesmo tudo em abstrato, que é do que se faz a vida. Escrevo aos que me magoaram, magoam, mas não voltam a magoar.
Tenho pena de a vida vos ter usado. Podia ensinar-me de tantas outras maneiras a capacidade absurda de alguns seres humanos passarem de bestiais a bestas, mas vocês tinham de vir exemplificar.
Por vezes, sou incapaz de tomar a decisão que devia convosco, como se a doença fizesse parte da cura, e faz, mas cada um que aparece de vós vai-me fortalecendo, o que não é necessariamente bom, para quem me aparece com a função inversa da vossa.
Tenho uma curiosidade insaciável de saber como se sentem ao magoar uma pessoa para quem sois quase tudo. Criam laços comigo, sentimentos puros, amizades rotuladas de “para sempre” e tantas memórias, para depois virarem só mais uma delas. Não sei se dói mais olhar para trás e ver que fui enganada, ou seguir em frente e sentir falta.
É incrível a vossa capacidade de trocar as pessoas, como se elas fossem todas iguais. Talvez porque vocês procuram sempre o mesmo. Não do outro, não para o outro, mas para vós. Como se fossem as pontes a precisarem do sem-abrigo para serem pontes. O que se calhar é verdade, agora que penso. Se sentir é viver, e sofrer é sentir. Eu preciso de vós para existir.
Por conseguinte, trago-vos boas notícias! Não precisam de enviar mais agentes disfarçados de pessoas, sim disfarçados, de ser humano eu não vi nada, que parecem interessantes para depois me desiludir, vai ser difícil pois cada vez crio menos expectativas, e também dispenso o vosso serviço de dar mais ação à minha vida. Agradecia paz, sinceridade e distância vossa.
É com vergonha que reconheço não me arrepender de tudo o que vivi, estranho paradoxo este que nos faz parecer que gostamos de ser enganados, mas não gostamos caso contrário não me queixava agora e, pondo o orgulho de lado, agradeço-vos por todos os “abre-olhos” que me deram (sei que foram precisas muitas tentativas, sempre tive um lado meu que acreditava na bondade das pessoas) mas prometo não precisar de mais nenhum! Infelizmente, para vós, não preciso de sofrer mais para me doer todos os dias.
Escrevo, à espera do dia que percebam que, até para magoar, é preciso encontrar a pessoa certa e primeiro amar.
~Phi

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Só se ama a tempo inteiro

Se estiveres ocupado quando o amor te bater à porta, não abras. Devia ser esta a primeira lei de todo o ser humano, não praticar amor em part-time.  Eu, infelizmente, aprendi a lição à pouco tempo, e foi contigo. Lutei pelo o que parecia aparentemente perdido, tão perdido que quase inexistente. Tentei despertar algo em nós que talvez nunca existira, ou, para ti, existiu apenas enquanto tiveste tempo. Abriste-me a porta quando estavas ocupado, apostas-te num amor que, sem eu saber, não passava de um passatempo que agora para ti perdeu, ou toda a piada, ou a prioridade perante todos os outros passatempos que tens.  O que me descansa é que sei que eu senti alguma coisa, eu amei. E tu? Não sei, mas vais sentir falta disso, porque ser amado de verdade é raro, irás ter a certeza, e só aí é que vais aprender a lição. Ainda virás bater-me à porta, atirar com pedras à janela e eu não vou abrir. Provavelmente, já nem irei lá estar. ~Phi

A pobreza resume-se a ti

És pobre. Não materialmente, mas espiritualmente. Tenho vergonha, não por não usares roupas de marca, mas por não me marcares a alma. És pobre, não por teres pouco para me dar, mas por não me dares tudo. Estarei a ser egoísta? Talvez, mas é só assim que sei amar. E tu? Ai, sabes-me a pouco. És pobre e por isso tornei-me pobre também. Não só não tinhas como ainda me roubaste. Esgotaste-me os sentimentos, levaste-me a alma e emprestaste-me as dívidas. Até um ponto tentei sempre pagá-las por ti. Pedi muitas vezes desculpa por não demonstrar um amor que não correspondias e dei-te o que pude sempre que pude. Dei-te tudo. Agora sou pobre, mas só para ti. Guardei o que tenho para quem lute por manter o que tenho, no mínimo. Agora dou, mas com intenção de receber em troca. Se também sou interesseira? Claro que sim. É de interesses que a vida é feita, e tu já não és um deles. ~Phi
Hoje o presente sou eu. Eu e a minha frieza, eu e os meus problemas, eu e a minha solidão. Sou um presente envenenado, corroído por dentro, e num quarto vazio tal como eu. Ofereço-me a ti se me aceitares. Compreendo que digas que não, nunca foste a minha primeira, segunda nem sequer terceira opção, mas és a que me resta. Tentei entregar-me a quem se parecia comigo, a quem eu tinha acesso, mas somos todos como retas paralelas.. temos muito em comum mas nunca nos poderemos cruzar. Enfim, hoje recebe-me na tua casa, aceita-me como teu presente. Sei que não sou digno de ti, Morte, mas hoje peço-te, aceita-me como teu presente. ~Phi & Rho